- Artes - 20/11/2001
- Arte e Espiritualidade
Falar
sobre arte é sempre uma redescoberta. Refiro-me à boa arte, aquela
que toca o homem em sua essência, espelhando a centelha de beleza
espiritual presente em cada um.
O
bom artista conhece as facetas humanas melhor do que ninguém.
Cada atitude, cada gesto, cada consagração e derrota humana é
por ele captado e expressado em seu mais íntimo sentido. Mas ao
assumir seu papel de revelador da alma do mundo, o artista investe
no processo seu mais ousado vigor de "ver além", retratando
na arte a emanação do ser, da essência espiritual. Exatamente
por isso ele nem sempre é compreendido.
Os
grandes artistas, verdadeiros magos da expressão, provam que a
sensibilidade aliada ao talento torna possível "dizer o indizível",
"alcançar o inalcançável". Espelho da própria busca
do ser espiritual.
A
arte também traz em si formas de meditação e de contemplação.
É um refinamento do espírito e para o espírito. Arte é a manifestação
de uma essência primeiro meditada pelo artista, depois expressada
em uma forma estética, para então ser contemplada não apenas por
seu próprio criador, mas por outros seres buscadores de suas próprias
essências.
Quando
digo arte, considero as diferentes formas de expressão artística
humana, determinadas por uma estética específica, mas voltadas
essencialmente à busca de uma transcendência.
Para
estrear nossa coluna sobre arte e espiritualidade, ninguém melhor
do que o poeta-místico inglês William Blake (1757-1827), um artista
para quem a noção de espiritualidade era tão íntima quanto a própria
arte.
Sua
obra mais importante em prosa The Marriage of Heaven and Hell
(O casamento do céu e do inferno) baseia-se nos escritos de
Emanuel Swedenborg (1688-1772), outro grande intelectual e místico
do século XVIII.
Para
Blake, completamente incompreendido e tido por muitos como louco
em sua época, o uso da imaginação em contraposição ao cientificismo
cada vez mais exarcebado do século XVIII representou a luta artística
de toda uma vida. Poeta, artista plástico e, acima de tudo, observador
atento do mundo, Blake conseguiu com sua arte contrapor-se a seu
tempo, rebelando-se contra o materialismo presente em seus dias.
Levado por sua extrema ousadia de artista engajado, chega a declarar
na carta ao amigo e intelectual Thomas Butts: "Que Deus nos
guarde de ver com um só olho e de dormir o sono de Newton".
Evidentemente
que as descobertas de Isaac Newton sobre a Física foram de extrema
importância, mudando um quadro teórico que se estendia desde Aristóteles.
Mas para o artista rebelde, William Blake, as descobertas da ciência,
por mais brilhantes que fossem, não eram suficientes para explicar
os processos da natureza e a alma humana, muito mais complexos
do que o cientista é capaz de conceber.
Em
sua ânsia de romper e de transcender os limites impostos por seu
tempo, querendo manifestar-se como espírito livre que era, Blake
tenta fazer "caber o infinito na palma de sua mão",
e consegue:
- "Ver um mundo em
um grão de areia
- E o Paraíso em uma flor
silvestre
- Segurar o infinito na
palma de sua mão
- E a eternidade em uma
hora"
William
Blake sabia como ninguém que somente a arte, com sua maior liberdade
de expressão, é capaz de tornar possível a manifestação da tendência
libertária do espírito. E soube mostrar isso da melhor forma que
um artista pode fazê-lo: com sua própria arte.
Márcia C. F. Fusaro
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Márcia
C. F. Fusaro é tradutora, pós-graduada em Língua, Literatura
e Semiótica, mestranda em História da Ciência pela PUC-SP
e professora do ensino superior em São Paulo.
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