- Ciência - 10/01/2002
- Os Paradigmas
É
provável que você alguma vez já tenha ouvido falar em PARADIGMA.
Essa palavra, comumente empregada em referência à ciência, cada
vez mais vem sendo utilizada nos mais diversos argumentos e discussões,
sejam de cunho filosófico ou espiritual. Lentamente, esse conceito
vem adentrando nosso dia-a-dia, despertando novas indagações.
O que tem a ver, porém, essa simples palavra com a vida de cada
um de nós? O que há de tão importante nesse conceito para merecer
o foco de nossa atenção?
Antes
de responder a essa pergunta, vamos primeiramente levar nossa
consciência ao passado, em busca da compreensão da origem do termo
e de seus significados:
A
palavra paradigma deriva do grego parádeigma, significando
modelo, padrão, estalão.
Thomas
Khun, físico e filósofo da ciência, explora em sua Estrutura
das Revoluções Cientificas, de 1962, a importância dos paradigmas
para o desenvolvimento da chamada "ciência normal". De acordo
com sua exposição, os paradigmas atuam como conjuntos de regras,
modelos e padrões responsáveis por sustentar e focar os esforços
de obtenção de conhecimento científico. Seriam como "guias", dando
rumo às investigações dos cientistas.
A
utilização de um paradigma, ou seja, de um conjunto específico
de pressupostos teóricos, permitiria aos estudiosos deterem sua
atenção em questões mais profundas e detalhadas, investigando-as
minuciosamente. De outro modo, sem o embasamento de um paradigma
vigente, a ciência torna-se por demais tênue e não-objetiva, necessitando
que cada investigador desenvolva uma explicação acerca de todos
os fundamentos básicos do tema estudado.
O
progresso do conhecimento científico dá-se, segundo Thomas Khun,
por meio das chamadas revoluções científicas, ou trocas
do paradigma vigente por um outro mais adequado. Essas revoluções
surgem de crises geradas por anomalias, ou problemas
graves cada vez mais freqüentes na explicação do paradigma vigente,
surgindo a necessidade de substituição. Quando um novo paradigma
emerge, capaz de melhor explicar os fenômenos e anomalias em questão,
e este é aceito pela comunidade científica em sua maioria, ocorre
uma revolução científica. Um exemplo dessa revolução foi o surgimento
da física relativista proposta por Einstein, cuja explicação de
mundo parecia mais "acurada" do que a explicação newtoniana
anteriormente aceita.
A
atuação e importância dos paradigmas não se resumem, porém, meramente
a questões científicas. Esses valores, regras ou padrões estão
de tal modo arraigados em nosso ser, que comandam cada ação e
pensamento de nossa vida sem que sequer tomemos consciência de
sua existência.
Pensemos
por um instante em nossas ações diárias. Recordemo-nos dos momentos
em que pagamos uma conta, entramos em uma igreja, realizamos um
trabalho espiritual, beijamos nosso companheiro ou companheira,
assistimos a uma aula. Lembremos também do modo como realizamos
cada uma dessas tarefas, e façamos então a pergunta: o que nos
levou a agir de tal modo e não de maneira diferente? Essa escolha
entre atitudes foi baseada em experiência pessoal, ou aprendida
de alguma outra forma?
Certamente
é uma pergunta difícil de ser respondida. Não devido a alguma
complexidade existente, pois, na verdade, a questão é bem simples
e direta. O que ocorre é que estamos tão condicionados a aceitar
influências externas que não sabemos mais separar o que é verdadeiramente
nosso do que não é. Até porque o costume de olhar para si mesmo
e observar-se profundamente não é freqüente nem estimulado.
A
própria estrutura social em que vivemos, sob todos os aspectos,
é grandemente responsável por tal comportamento. Nossa educação,
seja básica ou superior, é baseada em um método reprodutivo, de
transmissão de informações prévias, onde não há espaço para questionamentos
ou para a formação de um conhecimento original. Por intermédio
da atual educação paternal, do modelo "professor-aluno" de transmissão
de conhecimentos - no qual os estudantes vão à aula unicamente
para ouvir o que um professor irá dizer - e em tantos outros padrões
espalhados por nossa sociedade, aprendemos a assimilar de modo
subserviente e passivo o meio externo. Aprendemos a não questionar
nem o outro, nem nós mesmos. O curioso é que quando fazemos isso
estamos na verdade nos esquecendo de viver!
Muito
radical essa afirmação? Então atentemo-nos um pouco aos detalhes
e levemos nossa consciência novamente ao passado e às ações diárias:
É
provável que você se lembre muito bem de seu primeiro beijo, por
exemplo. Pois bem, lembre-se agora de como surgiu essa ocasião
do primeiro beijo. Faça um esforço e tente se lembrar de quantos
anos você tinha, dos pensamentos que passavam por sua cabeça na
época, e responda para você mesmo: Porque eu dei meu primeiro
beijo com essa idade? Por necessidade, para que me sentisse bem?
Claro, mas de onde surgiu essa necessidade? O que fez com que
eu sentisse esse grande desejo ou curiosidade de beijar alguém?
Busque a raiz de seu comportamento, vá até o mais fundo possível
e tente perceber a origem da necessidade. Se era esta verdadeiramente
devido a fatores internos, ou se era algo aprendido e gerado devido
ao meio.
Pode parecer um exemplo bobo - bem provável que
o seja -, mas se o leitor se atentar verá que pode ilustrar
bem a situação que tento explanar. Continuemos, então, com algumas
outras considerações;
Pensemos
agora nos discursos que usamos diariamente, em cada argumento
utilizado a cada diferente situação. O que dizemos é fruto de
experiência, refletindo o que realmente vivenciamos, ou é mera
reprodução de um discurso externo? Nossos pensamentos são realmente
nossos, ou são ecos de vozes alheias, reproduzindo-se em nosso
espaço mental?
Por
mais difícil que seja, olhe atentamente. Lembre-se dos conselhos
que damos aos amigos, das informações que passamos para frente.
De onde tiramos essas informações? De nossa experiência? Ou passamos
adiante algo que simplesmente lemos em algum lugar, ou ouvimos
de um professor "competente"?
Quantas
e quantas vezes emitimos julgamento sobre o discurso de outras
pessoas, criticando-o, achando-o até absurdo, baseando-nos para
isso em uma vivência que não é nossa, mas sim dos autores dos
livros que lemos e das palestras que assistimos. Quantas vezes
desconsideramos a pessoa por seus argumentos serem contrários
aos nossos valores mais profundos, esquecendo-nos de que estes
muitas vezes baseiam-se em pura CRENÇA.
Façamos
um real balanço de nossa vida, de todo o conjunto de valores que
possuímos e experiências pelas quais passamos. Deixemos de lado,
por alguns instantes, tudo o que aprendemos indiretamente durante
toda a jornada de nossa vida, despojando-nos de todas as informações,
preconceitos, valores e idéias introduzidos por meio de leitura,
diálogos, ou qualquer outro meio externo. Façamos isso, e respondamos
honestamente: O que sobrou? Quanto de nosso ser é realmente nosso,
fruto de verdadeira experiência, obtida diretamente? De quem é
a vida que vivemos nesse momento?
Provavelmente nos surpreenderemos com a resposta.
Estamos tão acostumados a acreditar em tal sorte de coisas, tão
habituados a tomar tantas e tantas crenças como verdades incontestáveis
que acabamos por não nos preocupar em vivenciar o que aprendemos.
Acreditamos firmemente quando cientistas nos dizem que a matéria
é composta por átomos, mesmo que estes nunca tenham sido verdadeiramente
vistos. Afirmamos certeza ao discursar sobre os mais detalhados
aspectos de teorias religiosas e espirituais, mesmo que não tenhamos
vivenciado plenamente a realidade das palavras que proferimos,
ou dos fenômenos que ocupamo-nos em explicar.
Essas
crenças básicas que caracterizam a nossa vida, fazendo parte da
maioria absoluta de nosso repertório de experiências, são na verdade
os paradigmas a que este texto se refere. Como pôde ser
visto, não se trata apenas de um conjunto de regras e padrões
determinantes de um contexto científico. Muito além disso, trata-se
das unidades básicas pelas quais geralmente formamos as nossas
idéias e opiniões. O nosso contato com esse termo inusual é certamente
muito maior do que poderíamos anteriormente imaginar.
Não
quero com isso dizer que os paradigmas são de todo ruins ou indesejáveis.
Pelo contrário, eles têm grande utilidade, pois nos permitem focar
certos objetivos, investir melhor nosso tempo. Podemos mesmo dizer
que a nossa forma atual de vida seria impossível sem a presença
de paradigmas (ou não será isso um paradigma?).
O
importante é atentar-se a eles, entender sua origem e as conseqüências
de cada valor internalizado. É ser coerente e verdadeiro para
consigo mesmo, buscando a experiência de modo direto e não por
mera reprodução de experiências alheias. É construir os valores
por meio de uma experiência pessoal, deixando de ACREDITAR e passando
a SABER.
O
modo pelo qual a sabedoria se dá não importa. A certeza vem de
dentro e por todos os lados, cabendo a cada um descobrir como
buscá-la.
Possamos
primeiramente ter coragem e discernimento para aceitar a ignorância
sobre nosso próprio ser e o mundo. A partir daí, possamos buscar
juntos a sabedoria, o verdadeiro conhecimento sobre a realidade
que nos cerca. Quando essa busca se originar de dentro, de dentro
também a experiência virá. Deixaremos então de pensar por pensar,
e passaremos a sentir. Deixaremos de acreditar, e passaremos a
saber. Deixaremos, por fim, de nos imaginar. Passaremos a ser,
simplesmente SER.
Gustavo
Mormesso de Abreu
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| Gustavo
Mormesso de Abreu é graduando em psicologia pela Universidade
Mackenzie e dedica-se ao estudo de temas ligados à Ciência,
Filosofia e Espiritualidade. |
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