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Filosofia - 14/11/2001
Ética na Tecnologia: Uma Abordagem Histórica

O presente texto foi apresentado como um Paper para o módulo de informática do Regime de Iniciação Científica da Universidade São Judas Tadeu.

por Alberto Cabral Fusaro

Introdução

Uma das questões que se levanta com grande freqüência nesse início do Terceiro Milênio é a da postura ética no uso da tecnologia. Quando o assunto é esse, não importa que estejamos falando de áreas completamente distintas da atuação humana, como as de medicina, jornalismo, física ou marketing. Em qualquer uma delas, o emprego da tecnologia sempre levanta uma indagação a respeito de quais limites devem ser respeitados e de quais devem ser superados.

Mas será que essa é uma problemática exclusivamente contemporânea? Viveríamos nós em um período assim especial, ao qual não se aplicam os preceitos herdados dos antigos, medievais e modernos? Ou o caso seria outro?

A proposta do presente artigo é a de sugerir uma rápida e resumida reflexão dirigida a respeito do assunto, sem a pretensão de oferecer soluções nem análises profundas da questão apresentada.

De Onde (Parece Que) Viemos

Ao passarmos a história da humanidade em rápida revista, encontramos indícios claros de que todos os desenvolvimentos tecnológicos levaram a humanidade a situações merecedoras de maior atenção no campo ético, mesmo que não se observe nenhuma revisão ética de fato.

Como exemplo disso, podemos relembrar passagens históricas significativas, em que o uso de novas tecnologias, principalmente nas guerras, levou a uma mudança no equilíbrio do poder. Recuando uns dois mil e quinhentos anos no tempo, encontramos a prática utilizada pelos bárbaros de lançar "bombas" de veneno sobre os depósitos de sementes das cidades sitiadas, para minar a resistência à invasão. Tal estratégia empregava o uso de diversas técnicas, como as de extrair e combinar materiais para se obter o veneno, ou ainda a tecnologia envolvida na construção das armas de arremesso utilizadas, desde fundas até catapultas.

Ao longo da Idade Média, surgiram novas armas de destruição em grande escala, capazes de eliminar um grande número de inimigos em pouco tempo, sustentando a idéia de que não basta possuir um exército maior ou melhor, mas que também é necessário haver superioridade tecnológica.

Esses exemplos nos inspiram a fazer uma pergunta: o uso dessas tecnologias bélicas foi ético? Talvez seja difícil responder ao certo. Há argumentos tanto contrários quanto favoráveis ao uso da tecnologia para "desequilibrar" uma guerra. Em geral, a opinião do lado vencedor é a que prevalece e, também em geral, foi esse lado que utilizou uma tecnologia superior.

Podemos encontrar exemplos ainda mais claros no final da Idade Média e no início da Idade Moderna, quando as grandes navegações levaram os europeus a encontrar povos tecnologicamente tão rudes que a superioridade de suas armas lhes permitiu colonizar novas terras. Em seguida, a Revolução Científica trouxe à luz uma série de conhecimentos que se reverteram em tecnologia e em novas possibilidades de "domínio" sobre a natureza. Mais uma vez, questionar tais passagens quanto à ética é uma árdua tarefa, pois o "lado vencedor" foi aquele que deixou sua versão gravada para o futuro.

E isso tende a se repetir indefinidamente na história.

Quem (Pensamos Que) Somos

Como resultado, chegamos ao momento histórico atual, o qual denominamos "contemporâneo". Observando nosso passado recente, encontramos no último século um aumento da produção científica em escala quase exponencial, resultando em um avanço tecnológico impressionante. Contudo, será que uma pessoa que estivesse olhando para o final do século XV, a partir do século XVI, também não teria essa impressão? Os inventos ligados à navegação, as idéias de Giordano Bruno e de Nicolau DiCusa, que permitiam explicar fatos até então inexplicáveis, e outras tantas "novidades" poderiam dar uma sensação de se estar no auge da civilização, como se nada mais pudesse superar tal momento. Talvez estejamos vivendo hoje algo parecido.

Contudo, apesar das semelhanças, o questionamento ético está em alta em toda nossa sociedade como nunca antes. E não apenas na tecnologia, mas em todas as áreas. Em geral, em termos culturais, o assunto que está em voga não é exatamente o que se possui, mas o que se está buscando, como se a humanidade discutisse coletivamente, por intermédio do diálogo cultural, o passo seguinte a ser dado. Ouso sugerir que, sob certo aspecto, o impasse de nossa geração é o da ética.

A questão da ética na tecnologia parece ser uma conseqüência da falta de difusão da ética como uma prática cotidiana entre as pessoas. Os valores e referências de uma sociedade competitiva e centrada em resultados parecem sugerir uma constante necessidade de superação, valorizando a diversidade da busca e vendo qualquer limitação como um problema. E a ética é uma limitação. Sendo a ética um limite em si, ela se torna um problema. A grande questão que se nos apresenta, então, é a de escolher coletivamente quais os traços delimitadores da ética. Essa escolha determinará o rumo e o perfil de nosso futuro.

Para Onde (Achamos Que) Vamos

A tecnologia parece ser o centro de nossa sociedade atual. Vivemos um período que está sendo identificado, talvez prematuramente, como a "Era da Informação". É desnecessário dizer que a evolução de nossas redes de informação depende dos avanços da tecnologia. Além disso, também vivemos a "Era Genômica".  Na opinião de muitos pesquisadores, existe uma grande possibilidade de que a sobrevivência de nossa espécie venha a depender das tecnologias de controle e de manipulação dos genes. Passamos pouco tempo pela "Era Atômico-Relativista" e rumamos para uma possível "Era Quântico-Supercordal" no campo da Física, ciência essa que é um dos principais esteios determinantes da tecnologia.

Entre as diversas coisas que todas essas "eras" têm em comum, devemos ressaltar dois dos fatores que são pertinentes ao nosso futuro: a capacidade de transformar profundamente a realidade em seus aspectos tecnológicos; e a alta volatilidade ética desse poder de transformação quase absoluto. Se não delimitarmos a atuação da tecnologia pela ética, mas apenas pela incontrolável necessidade de progresso, podemos vir a construir um amanhã nada desejável.

Conclusão

O que é então a tecnologia? Tecnologia é poder. É o poder de controlar, de criar, de aplicar a razão sobre a natureza, sobre as pessoas. Quanto mais avançada a tecnologia, maior o controle e mais amplo o poder. Em uma sociedade absolutamente tecnológica, o poder seria absoluto? Talvez. Isso soa assustador, mas o mais importante não é saber "quem" teria acesso a esse poder, mas sim conhecer quais os fatores que delimitam esse poder, uma vez que quando se fala em "poder absoluto", está-se referindo a algo acima de qualquer lei.

A proposta mais coerente seria a de esse poder se submeter apenas aos princípios éticos, independentemente da área de atuação. Diferentemente dos antigos, que puderam se abster de uma manifestação mais premente da ética, dado o estágio tecnológico em que se encontravam, a geração atual não pode mais se permitir tal indulto. Tal permissividade seria uma espécie de "suicídio" por "asfixia tecnológica", já que a falta de ética poderia levar a humanidade a conseqüências desastrosas.

A discussão das questões éticas nas aplicações tecnológicas deve permear o diálogo científico nos anos vindouros. Desse embate surgirá o mapeamento de nosso futuro. "Quem viver, verá".

Bibliografia

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Trad. de Alfredo Bosi (Org.). São Paulo: Martins Fontes, 1999.
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