- Planeta em Evolução - 01/06/2002
- Conhecimento X
Sabedoria
Alguns anos atrás, quando estava começando
a dar cursos e palestras com maior freqüência, descobri
que muitos conceitos comuns, com os quais as pessoas pensam estar
acostumadas, são verdadeiras caixas de surpresas. Uma de
minhas surpreendentes descobertas foi a de que a grande maioria
das pessoas considera o atributo inteligência como algo
que levaria obrigatoriamente a outro atributo: a bondade. E isso
é um fato curioso. Desde quando as pessoas se tornaram
boas apenas por serem inteligentes? Isso não parece haver
acontecido, mas há quem não consiga dissociar as
duas coisas com facilidade.
Para tentar elucidar tal condição,
consideremos o seguinte exemplo: uma pessoa que tenha grande capacidade
de planejamento, visão comercial, tino de liderança,
percepção estratégica, raciocínio
rápido e pensamento preciso pode ser considerada inteligente?
Vamos assumir que sim. Tal descrição pode se enquadrar
a um empresário, a um político ou a um traficante
de drogas! Sendo todos eles inteligentes, seriam todos necessariamente
homens bons? De jeito nenhum. A inteligência pode ser usada
para coisas boas ou ruins. E, para piorar, o próprio conceito
de diferenciação entre "bom" e "ruim"
também é relativo.
O leitor poderia dizer agora: "Relativo?
Que nada. O que é bom é sempre bom e pronto, ora!".
Não, nem sempre. Suponhamos que estivéssemos juntos
em uma guerra, na frente de batalha, combatendo um inimigo que
nos está massacrando e avançando sobre nós
em maior número. Num dado momento, quando nosso batalhão
está prestes a ser dizimado, surgem os aviões aliados,
bombardeando o inimigo com precisão cirúrgica e
nos salvando a todos da aniquilação. Isso não
seria mais do que bom? Seria ótimo, certo? Mas apenas para
nós. Qual seria a opinião do inimigo a esse respeito?
O que diriam as famílias daqueles soldados que houvessem
sido mortos em tal combate? Quem acharia isso bom? Creio que nenhum
ente querido o faria. Por isso, "bom" e "ruim"
são coisas relativas e, por isso mesmo, precisamos ter
sabedoria para usar tais conceitos com correção.
Sabedoria. Esse é outro elemento que
causa confusão. É comum que se confunda conhecimento
com sabedoria, mas essas são coisas bem distintas. Se prestarmos
atenção, podemos verificar que a diferença
é clara e visível. O conhecimento é o somatório
das informações que adquirimos, é a base
daquilo que chamamos de cultura. Podemos adquirir conhecimento
sem sequer vivermos uma só experiência fora dos livros
e das aulas teóricas. Podemos nos tornar cultos sem sairmos
da reclusão de uma biblioteca. Já a sabedoria, por
outro lado, é o reflexo da vivência, na prática,
quer pela experimentação, quer pela observação,
da utilização dos conhecimentos previamente adquiridos.
Ou seja, uma pessoa culta não é necessariamente
sábia, mas uma pessoa sábia é relativamente
culta em sua área de sabedoria. Para se ser sábio
é preciso viver, experimentar, ousar, ponderar, amar, respeitar,
ver e ouvir a própria vida.
É preciso buscar, sim, o conhecimento,
a informação e a cultura, mas também se deve
ter a coragem de experimentar a vida, o amor e o compartilhar.
Deve-se atentar para não se tornar uma "ostra egóica",
alguém fechado em si mesmo e no próprio processo
de aprendizado. Fazer isso é o mesmo que iniciar uma viagem
e se encantar tanto com a estrada a ponto de se esquecer para
onde se está indo. E isso não parece ser uma atitude
muito sábia. Então, sejamos sábios: vivamos,
amemos e compartilhemos o que há em nossos corações!
Alberto
Cabral
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