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Atalhos - Cefle

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O tema "enchentes" tem sido muito discutido ultimamente. Os maiores culpados dos quais tenho ouvido falar são os rios e os governantes. A solução mais freqüente requerida pela população tem sido a canalização, ou seja, transformar o rio em um cano, livrando-se de um problema sem medir as conseqüências dessa intervenção. Afinal, "é só água".

Mas por que será que isso acontece?

Podemos comparar a estrutura de repercussão das ações em uma cidade a uma gota que cai em um copo com água. Ao tocar a superfície, a gota emite ondas circulares em todas as direções e que tocarão as bordas do copo, gerando um contrafluxo que repercutirá em toda sua extensão. Ou seja, qualquer ação, por menor que possa parecer, espalha-se até os limites urbanos, repercutindo em todo seu percurso. E, com toda certeza, haverá o refluxo dessa ação.


fragmento de fotografia: Eduardo Ferroni

Não existe ação isolada, sem repercussão. Tudo o que fazemos interfere no meio onde vivemos.

Um bom exemplo disso é a crescente impermeabilização do solo nos lotes e nos espaços públicos que, juntamente com a pavimentação inadequada das ruas, vem reduzindo em demasia a penetrabilidade da água no solo, restando apenas o caminho das galerias de águas pluviais para o escoamento das chuvas, que, por sua vez, deságua nos rios.

Porém, os rios existiam antes mesmo de morarmos junto a eles. Sua capacidade de vazão era perfeita para a necessidade de escoamento com o meio natural intacto. Contudo, o homem foi alimentando os rios além de sua capacidade, como se estivesse forçando alguém a beber 5 litros de água de uma só vez. Pois é, ninguém agüenta! Os rios também não!

Então, nós culpamos os rios, as chuvas, o verão, os governantes e todo mundo que passar pelo nosso pensamento, pelo fato de os rios haverem transbordado, ou melhor, "haverem sido transbordados". Em busca de uma solução, nós os interrompemos, canalizamos, alargamos, alteramos seus cursos e até conseguimos inverter seus fluxos. Mas por que nada disso funciona?

Os rios e as chuvas são naturais, existiam antes mesmo da existência do homem. O ambiente a nossa volta não foi se modificando, nós é que o transformamos naquilo que conhecemos hoje. Portanto, todos temos nossa cota de responsabilidade pelo mundo que conhecemos e do qual participamos, ainda que passivamente.

Já posso até ouvir muitas pessoas dizendo que nada têm a ver com isso, e pelas mais variadas justificativas - temos muita criatividade e habilidade em fazê-lo. Essa auto-indulgência envolve a necessidade do homem de se eximir das responsabilidades, das causas de seus desconfortos. A culpa sempre tem que ser de alguém. No caso das manifestações naturais, porém, quando não temos parâmetro para culpar pessoas, culpamos as próprias manifestações.

É só ligar a televisão, ler uma revista ou abrir um jornal para verificar um monte dessas manifestações: chuva mata tantos, fúria do furacão devasta, vulcão derrama suas cinzas sobre a cidade, calor castiga, frio, terremoto, camada de ozônio, nevasca. Puxa! São tantas! O exemplo mais atual é o "El Niño". Demos até um nome para esse evento! Mas o que é o El Niño?

Simploriamente poderia-se dizer que é uma conformação peculiar de correntes de ar. Simples, não? Nem tanto, pois isso é o reflexo das atitudes de todos os habitantes do planeta, ou seja, o reflexo do que todos nós fizemos. É o contrafluxo do exemplo do copo: o El Niño é uma criação do homem e não do planeta.


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