- Ecos & Urbanus - 17/11/2003
- O HOMEM E O MEIO:
a dualidade SER x ESTAR
"Ser ou não ser, eis a questão". Com esta máxima
shakesperiana, a espécie humana foi colocada em cheque e, de quebra,
sujeita a uma infindável lista de novas interrogações. Ser ou
não ser. Uma questão crucial para o honorável escritor inglês
que filosofou sobre a Inglaterra elizabetana. Uma questão crucial
para os quase seis bilhões de congêneres deste escritor/filósofo
do século XXI. Uma questão crucial para, talvez, os residentes
futuros do planeta Água em sua maior explosão demográfica jamais
registrada.
Ser. Um verbo de ligação que aprendemos a utilizar
desde tenra idade, a classificar facilmente nas aulas de análise
sintática e a respeitar - mesmo inconscientemente - como um verbo
ligado à nossa própria natureza. "Sou fulano". "Sou inteligente".
"Sou um cidadão consciente". "Sou uma pessoa interessada no bem-estar
dos outros". "Sou bem-humorado". Somos uma série de coisas. Não
nos damos conta, às vezes, de outras tantas séries de coisas que
somos. Simplesmente somos.
Este simples "somos", porém, talvez passe despercebido
da maior parte de nós, ocidentais, cuja maneira de ver o mundo
e leitura de tempo estão atreladas a uma ausência de reflexão
interna, de auto-avaliação, de medo de entender que somos incapazes
de compreender nossa natureza mais simples e mais instintiva.
Parafraseando os mecanicistas, eternos rivais dos vitalistas do
século XIX, poderia ousar dizer que nosso organismo biológico,
afinal, não é mais que um mero e intrincado conjunto de trilhões
de unidades morfo-funcionais, denominadas anatomicamente células,
cuja composição química depende, fisiologicamente, do controle
elétrico de impulsos que caminham por feixes nervosos. Em resumo:
moléculas químicas reagindo entre si e dependentes de corrente
elétrica? Sim. Simples e complexo. Um microcosmo formado por milhões
de outros microcosmos. Simples como o verbo ser. Complexo como
suas implicações práticas.
Aonde pretendo chegar com esta
reflexão preliminar? A questão do ser tem tomado o centro de mesas-redondas
em várias instâncias do conhecimento científico atual. Particularmente
no âmbito das ciências biológicas, a ecologia e suas áreas afins
têm proposto reflexões aos cidadãos do Novo Milênio. Somos, queiramos
ou não, uma biomassa significativa da crosta terrestre, com influência
positiva ou negativa sobre o meio que nos cerca. Tais reflexões
acerca de nossa ação na natureza talvez não tenham tomado lugar
nas contribuições ao conhecimento científico contemporâneo de
cientistas como Haeckel e Odum [1],
por exemplo. Talvez nunca interessem ao cidadão ‘comum’, que não
entende o porquê da ciência e das coisas acadêmicas. Talvez sequer
cheguem a ser a pauta de discussões dos futuros dirigentes do
mundo. Mas a resposta dada a tais questionamentos podem mudar
o rumo das coisas e reverter a Roda da Fortuna, desbancando as
três moiras que governam o destino da humanidade.
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