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Atalhos - Cefle

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Uma destas reflexões pode ser desencadeada pela pergunta "Somos ou estamos ecologicamente conscientes de nossos atos e seus efeitos no meio ambiente?". O ser humano é a espécie animal que pensa a ciência e procura explicar a natureza do ponto de vista de seu próprio entendimento, fazendo parte de um ciclo vital com elos inimagináveis, interrelacionados entre si de maneiras as mais insondáveis possíveis. A dúvida é: somos conscientes de nossos atos? Se a resposta for um empolgante e sonoro "sim", devemos cantar os parabéns... chegamos ao ponto de deslumbrar novas consciências que procuram fazer uma leitura de mundo mais atenta e mais desafiadora, voltada ao que chamamos de ecologia sustentável, ou seja, aquela que mantém equilibradas as esferas humanas - em seus amplos aspectos, tais como o social, o cultural, o de lazer etc. - e de recursos naturais e biodiversidade. Se a resposta for um acanhado e boçal "não", creio que é hora de refletir sobre conceitos e posturas. Talvez não estejamos sequer sensibilizados sobre nossos próprios atos e suas influências sobre os demais níveis da biosfera.

Estar ecologicamente consciente de nossos atos e seus efeitos no meio ambiente pode significar algo momentâneo e sem um sistema radicular sólido; em outras palavras, pode ser um modismo puro e simples - "é legal falar de ecologia hoje em dia" - ou uma opção razoável que pode, em um dado momento, ser substituída com facilidade (e sem receios!) por outra preocupação mais pertinente. Estar, do ponto de vista do comprometimento sócio-econômico-biológico, pode ser uma reação pungente e, até certo ponto, iconoclasta - romper o status quo em que se encontra o meio ambiente e a sociedade e criar alternativas sustentáveis. Mas a transitoriedade incomensurável do estar não tece tramas consistentes, não cria raízes verdadeiramente presas ao solo. O estar veste-se de algo novo, de vanguarda, com toda a pompa e a circunstância. Sua roupa, porém, pode ser tão frágil como a casa construída sobre a areia fina. A maré alta e as adversidades atmosféricas logo derrubam a casa, deixando-a à mercê das intempéries, que acabam fazendo o resto da tarefa.

Ser ecologicamente consciente de nossos atos e seus efeitos no meio ambiente é, antagonicamente, algo muito mais profundo e comprometido. A visão iconoclasta persiste, porém fundamentada em práticas consistentes, cujos alicerces tornam-se sólidos com o passar dos anos e cujos baluartes não tendem a decair pela ação das intempéries. Os modismos vêm e vão, porém a estrutura interna não é atingida. Ser consciente depende, muitas vezes, de uma vida inteira. Nem sempre é fácil ser. Às vezes, é muito mais cômodo estar que ser. Porém ser é muito mais gratificante, muito mais vivo.

O que resta, então, a dizer? Não há como julgar as pessoas e derramar sobre elas um mea culpa obstinado. Não há como estabelecer parâmetros globais e dizer que o mundo está ou é ecologicamente consciente de seus atos e seus efeitos no planeta. Não pretendo cair no chavão "faça a sua parte". É um imperativo que deveria ser uma constante em nossas vidas. Chegou a hora de repensar valores e atitudes frente às dificuldades e obstáculos que a Terra nos coloca, em seu choro premente e cada vez mais alto. Chegou a hora de ser e deixar de estar. Sejamos, pois, eco-cidadãos de verdade, e não apenas eco-interessados ou eco-amigos, no vaivém do modismo ecológico.

Fernando Santiago dos Santos
Fundação Pró-Verde


Fernando Santiago dos Santos é Bacharel e Licenciado em Ciências Biológicas pela Unicamp, Mestre em História da Ciência pela PUC-SP, tradutor, intérprete, professor e diretor de educação ambiental na RPPN Rizzieri/Fundação Pró-Verde (São Sebastião, SP).


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