- Ecos & Urbanus - 29/04/2004
- Qual é
a importância da arborização urbana?
Houve tempos em que era praxe o passeio ao final
da tarde, pelas veredas das cidades, para a observação
das árvores e dos arbustos em pleno florescimento. Homens
e mulheres sabiam, muitas vezes empiricamente, quando a paineira
dava flores, quando o ingá gerava seus doces frutos, ou
quando as primaveras e outras espécies comuns em nossas
cidades sofriam alguma transformação em seus ciclos
de vida. Muitas goiabeiras foram palco para as mais diversas brincadeiras
infantis. E, convenhamos, quem não subiu em alguma árvore,
por menor que tenha sido, para apanhar amoras, abacates, ou as
referidas goiabas repletas de bicadas de pássaros? Nossas
avós talvez relembrem aqueles dias em que sentir o aroma
de flores constituía fato normal na vida de qualquer cidadão.
Os tempos agora são muito diferentes.
Estas atividades, hoje desconhecidas da maioria dos habitantes
das grandes cidades, revelam, na verdade, algo que transcende
simplesmente o senso comum e a observação empírica.
A arborização de praças, parques públicos
e ruas é algo necessário e de extrema importância
para a sobrevivência de vários animais e outras espécies
vegetais, que usam a cidade como habitat natural ou como rota
durante a migração. Em ecologia, cunhou-se o termo
floresta urbana, ou seja, o conjunto de árvores e arbustos
que compõem a área verde das cidades, em meio ao
trânsito, aos postes de luz e às casas. Mais
que uma mera fonte de prazer e atividade lúdica, a arborização
de ruas e outras áreas comuns das cidades é um gerador
de alimento para diversas espécies de animais - mamíferos,
aves, insetos - cuja dieta depende dos frutos e do néctar
de inúmeras árvores nativas do Brasil, além
das inúmeras espécies que foram sendo introduzidas
em nosso país por tantos e tantos anos (as chamadas espécies
exóticas ou alóctones, em oposição
às espécies nativas ou autóctones)[1]
. Várias cidades brasileiras possuem espécies que
mantém as ruas floridas praticamente o ano todo. Os polinizadores
e aqueles que visitam as plantas para obtenção de
alimento também podem ser vistos praticamente durante o
ano inteiro. Há estudos, inclusive, sendo
realizados com a floresta urbana, onde os impactos das podas exageradas
e a má administração pública sobre
as árvores da cidade refletem-se na diminuição
das populações de vários animais polinizadores
e visitantes florais, que acabam se tornando, muitas vezes, raros
ou totalmente ausentes, com o passar dos anos [2].
Muitas pessoas reclamam junto ao poder municipal
ou órgão responsável pela manutenção
das áreas verdes do município quando certa árvore
danifica as calçadas, ou quando as folhas e as flores de
certas espécies arbóreas sujam o quintal, a varanda
e a churrasqueira que acabou de ser limpa. Aqui, temos que discutir
uma questão que muitas vezes é deixada em segundo
plano. É verdade que muitas plantas podem causar transtornos
sociais. Tanto espécies nativas quanto exóticas
podem trazer problemas para as instalações de uma
cidade. O sistema das raízes, ou
o crescimento exagerado dos ramos ou o tamanho e dureza dos frutos,
sem contar outras características particulares das espécies
vegetais, podem constituir problemas sérios que as autoridades
e as equipes que realizam a arborização das vias
publicas não estudam previamente, antes da execução
de projetos de arborização. Indivíduos de
flamboyant [3], cujas
raízes tendem a subir em direção ao asfalto
ou mesmo ao piso da calçada, por exemplo, podem destruir
canteiros e causar prejuízos no asfalto de vias públicas.
Similarmente, a famosa chapéu-de-sol
[4], cujos frutos - as
"cucas"; ou amêndoas - são muito apreciados por morcegos,
podem igualmente comprometer calçadas e canteiros. Os galhos
quebrados ou soltos das árvores que se ramificam abundantemente
podem ficar suspensos sobre os fios elétricos, sendo um
perigo potencial para o início de curtos-circuitos ou acidentes
mais graves. Embora a lista de "desvantagens"; da arborização
possa ser grande, e talvez eqüivalente aos pontos vantajosos,
boa parte dos estudiosos do assunto adverte para algo muito simples:
o conhecimento acerca da biologia vegetativa
e reprodutiva das árvores, sejam elas nativas ou introduzidas,
eliminaria quase que a totalidade dos problemas causados pelas
espécies em questão, já que as informações
serviriam como um plano-diretor de planejamento paisagístico
e florístico nas cidades [5].
Características gerais como preferência por ambientes,
rusticidade, desenvolvimento de raízes e ramificação
da copa, valor paisagístico e resistência a pragas
e moléstias são parâmetros que podem ser analisados
e avaliados quando da escolha pelas espécies que definitivamente
farão parte da floresta urbana e, consequentemente, acompanhar
a dinâmica da cidade por várias décadas.
Por maiores que sejam
as reclamações dos munícipes acerca dos estragos
de certas árvores, ou da "sujeira"; que as mesmas possam
causar sobre seus carros e quintais, é inegável
a sensação de bem-estar que uma rua arborizada traz
quando comparada a outra totalmente desprovida de vegetação.
Quem já passou por cidades cuja floresta urbana é
muito bem tratada, como Maringá e Campinas, por exemplo,
não pode negar a importância das árvores e
arbustos como cobertura vegetal das vias públicas. Cabe
à população, junto aos órgãos
públicos responsáveis, o planejamento e a manutenção
das espécies vegetais implantadas na arborização
pública, que se preza tanto a um simples "olhar as flores
abrindo"; quanto a um sofisticado bird-watching vespertino, com
binóculos e equipamento de gravação [6].
Fernando Santiago dos Santos
Fundação
Pró-Verde
|
| Fernando
Santiago dos Santos é Bacharel e Licenciado em Ciências
Biológicas pela Unicamp, Mestre em História da Ciência pela
PUC-SP, tradutor, intérprete, professor e diretor de educação
ambiental na RPPN Rizzieri/Fundação Pró-Verde (São Sebastião,
SP). |
|
1
- Como exemplos de espécies nativas do Brasil, podemos
citar a goiabeira (Psidium guajava, da família das mirtáceas)
e a pindaíba (Xylopia brasiliensis, da família
das anonáceas); entre as inúmeras espécies
exóticas que se adaptaram com êxito em nossas terras,
já fazendo parte da flora brasileira, podemos citar a
azaléia (Rhododendron, com várias espécies,
da família das ericáceas) e as mangueiras (Mangifera
indica, da família das anacardiáceas).
2
- Artigo interessante sobre o tema foi publicado na Folha de
Londrina, 17/10/2003, folha B6, de autoria do Prof. Dr. Efraim
Rodrigues (Universidade Estadual de Londrina - Paraná),
com o tema "Uma nova idéia: a floresta urbana".
3
- O flamboyant pertence ao gênero Delonix, uma leguminosa
cesalpinioídea (da mesma família das conhecidas
senas, cássias e patas-de-vaca da nossa flora).
4
- Algumas espécies de Terminalia, da família
das combretáceas.
5
- Leitão Filho, Hermógenes de Freitas &
Dennis B. Azevedo, 1989. Critérios gerais para implantação
de um parque ecológico. Campinas, Editora da Unicamp.
6
- A expressão bird-watching (literalmente "observação
de pássaros") pode ser referida tanto a pesquisadores
de ornitologia quanto ao público leigo interessado em
escutar, ver e acompanhar o comportamento de pássaros
que visitam as árvores e demais espécies vegetais,
em suas matas nativas ou na floresta urbana.
|